

ESTADIA NUM QUARTO DE LONDRES(Ct/18)
O contato um tanto sidéreo fez-me reviver e questionar tempos em que a vida parecia ser e não era. Insólito. O pequeno espaço, o quarto, combinava com o da minha presença solitária, fiel, num quarto em um mundo vulcanizado e disléxico onde lágrimas vertem cinza e larvas quentes, incandescentes, indolentes e o meu coração côncavo vira convexo. Causa-me angústia e suor frio quando nisto penso sem desejar. As vitrines geladas com manequins ainda mais gelados, pálidos e magros se mostram frios, soturnos, nada colorido. Expõem aos olhos, dos passantes, uma fremente atração, inebriante de glamour inexistente, mas, vista. Loucura da vontade necessária, desnecessária, onde o ter é algo mágico e a primeira impressão nos engana e satisfeitos por poucas horas, e consequentemente, depois o fim da magia. Atração traiçoeira. Expectativa relacionada para consigo mesmo onde a satisfação é momentânea e simultaneamente a insatisfação surge. Um pequeno quadro em aquarela, na parede, chama-me atenção até então despercebido. Americanos do norte não pintam como americanos do sul, pensei. A sutileza dos traços é algo no diferencial da lógica do meu olhar. Aquarela é delicadeza, é respirar leve para não danificar as cores. Belo! O momento torna-se mais frio. Cerceio por um cachecol. A cor invade o pensamento: vermelho. Meu olhar procura do alto a rua que julgo ser Kris Roads, a cor azul para juntá-la ao vermelho e fazer o meu cérebro aceitar os 0,5º(-) e esquentar em flashes de réstias, restantes, de sol da tarde em declínio. A turbulência que há em mim e que sinto propõe um final de tarde ainda mais só, caso não pense em algo urgente a propiciar-me luz, calor e ânimo. Sinto muito frio e sinto a falta de calor humano. Pessoas totalmente agasalhadas com gorros multicores pinçam a calçada como formigas ao trajeto para casa, diferentemente, conforme o comportamento social de cada grupo. Em fila indiana, destinadas a trabalharem dies et nox pois, aqui a vida não pára. Muitos pontos coloridos, enfim mas, também o gris em muito se destacava e isolava inda mais o pequeno espaço voluntário. Ouço a tevê de costas e de frente à janela. Minha atenção voltou-se ao noticiário da rede local Sky News: um robber entrara em um ônibus que trafegava pela Krigs Roads e fizera refém uma moça, cidadã brasileira, radicada em Londres. Estava essa garota, em país errado e na hora errada. Isso, só acontece no Brasil, pensei. Retrocedi e repensei: Em Londres, capital da Inglaterra e do Reino Unido, isso, também acontece aqui e eu num quarto de Londres. L’histoire se répète. Visão conturbada de um país onde se situa o Palácio de Buckinghan e de londoners, cosmopolitas conectados com as casas do Parlamento. Aqui, imaginar bandoleiros, salteadores? - Reporto-me neste instante, para aliviar a minha ansiedade e espírito, à Cornualha. Posso ver O Cão dos Baskervilles se juntar as ovelhas próximas ao casarão duro e frio da fazenda no sudoeste da Inglaterra. O frio fere a minha face, mas, o meu corpo e minha mente estão tranqüilos e posso indagar se Deus passou um dia por aqui, pelo silêncio que sinto e experimento dentro do mais obscuro tempo de um momento mágico, um tanto letárgico. Passeio pelo parque de Dartmoor e pela badalada Glastonbury, uma sensação intrínseca. Sherlock Holmes foi feliz nas suas investidas de detetive. Quem sabe dar um pulinho até Oxford - cidade jovem de todas as tribos e em Cambridge conhecer a Harvard University - Uma sirene me faz retornar. O restrito mundo se faz presente, ainda, num quarto de Londres. O aroma de café fresco chega e desperta o prolongamento sensorial e diante desse sentido, imprevidente, me encontro confortavelmente à mesa, num café da Gardner Street. Fica inda mais saboroso o aroma natural da nossa melhor bebida brasileira acompanhada com croissants amanteigados e levemente quentes aguando minha boca. Impossível comer um só. Comer para suprir toda vontade contida por insegurança ou medo de enfrentar o inverno Londrino e por tentar conhecer as pessoas geladas e cosmopolitas, quentes de coeur. Sinto-me melhor agora. Passeio pelo Trafalgar Square e vejo o Big-Ben. Posso conferir peças egípcias, belíssimas nunca vistas, no Museu Britânico e adentro a Catedral de São Pablo, um dos maiores templos do cristianismo. Fantástico velho novo. No metrô a sensação que tenho é realmente de um mundo globalizado, um tanto soturno. O comportamento é único e flexível. O frio, único e inflexível. Cidade que habita no subsolo dum planeta civilizado onde a saudade transporta meus sentimentos ao meu país, quente, indisciplinado e pobre. As cores lá são mais vivas, o mar azul é imenso, as praias cantam a música do mar e das gaivotas, o calor humano é visível e sentido. Mergulho e refresco o meu corpo no mar do Forte baixando a adrenalina. Corro em direção ao Arpoador e miro Copacabana, os Dois irmãos e miro Deus. Imensamente grande é Deus, neste momento, porque, mar, sol, praia, palmeiras, água de coco, gaivotas, o barulho das ondas, o cheiro das águas, as pedras de cheias de limo dando mais colorido as águas e paisagem, conchas de todos os tamanhos, o imenso céu azul, nuvens brancas, bandos de pássaros, patos sobrevoando o mar rumo às Cagarras, tudo isso é o meu país. De braços abertos no alto do Corcovado, Ele, protege e vela o meu povo sofrido, carente, mas, que luta, vive feliz mesmo não sendo cosmopolita. Cheguei à estação de South Kensington e alguém me espera. No meu sonho, em um quarto de Londres, restam as sombras de um mundo ético e polarizado de poucas cores. Opinar? - (?) Conhecer sim, mesmo porque nunca lá estive. Acordei!
edidanesi
Enviado por edidanesi em 11/08/2025
Alterado em 12/08/2025 Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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