Meu recanto

"A IMAGINAÇÃO É MAIS IMPORTANTE QUE O CONHECIMENTO" (ALBERT  EINSTEIN)

Textos

                             AGONIA DA MOSCA
                                         (Art/06)


     A leitura foi interrompida por um som leve, distante e indefinido. Volto ao meu livro e já nem lembro onde parei se foi no segundo ou terceiro parágrafo de qual página. Da sacada, visualizo quase tudo amarelo contrastando com o azul do céu e percebo uma neve de flores, ainda mais amarela, forrando o chão da rua e da calçada da minha rua, à rez-de- chaussée. A brisa da tarde persiste e o tapete amarelo-ouro vai ficando volumoso formando uma espessa camada aveludada, uma paisagem linda e digna em algumas das ruas da minha cidade de Curitiba. O zumbido leve, volta à cabeça e ouço o frear dos ônibus e percebo movimento de pessoas sob as copas das árvores, da ladeira, espremendo-se para entrar no lotação como uma fila de porcos que entram no curral cuja diferença é que, nesse meio de transporte, as pessoas correm e se apinham para garantir o dia seguinte, e os porcos entram prensados para comer. Mal sabem esses azarados animais o que lhes se reserva no dia seguinte, ou dentro de alguns meses. – Ironia da espécie. - Cala o pensamento e ouço as folhas do meu livro em sintonia com o tempo. A trama considera culpado, John, que se julgava livre de qualquer suspeita e, este, nem desconfia que o seu destino, pouco será próspero e seu projeto de vida enveredará para “un grand-mal-final”.
     A persistência é considerada, ápice, para todo e qualquer objetivo e eu não estou conseguindo fixar-me à leitura desde a interrupção daquele som indefinido e fraco que repercute na minha cabeça feito uma sinfonia triste de final de tarde vinda de parte também indefinida que cala fundo e passa como à tarde que se despede dos loucos e dos amantes em circunstâncias quentes, ou, sofridas, como as margaridas, do canteiro central da minha casa, que se fechavam no tempo da minha infância, à espera de um novo amanhecer e se refrescavam e sonhavam com as delicadas gotas do orvalho alegrando-se com o nascer do sol do novo dia. Transporto-me e percebo familiar, agora, aquele lusco fusco inquietante de som nada feliz que ressoou alguns minutos atrás.
          “Pela manhã chorei, porque, o meu tempo é calado e inquieto”. Fora talvez pela minha angústia por algo que tranca o meu coração por razões absolutas e inconsequentes de um tempo que se desdobra e nada vejo. É estúpido dizer e, nem sei por que o faço e as historias me distraem. Volta o instante e ouço novamente, mais agudo, aquele zumbido ainda mais inquieto que antes e mais denso. As imagens se formam no pensamento e associo o zumbido, ainda agora mais familiar, e procuro ouvir atentamente e o livro pode esperar mesmo que me incomode sair do caminho do quase conhecido para o desconhecido.
     Lá estava a mosca de cabeça para baixo chorando seus derradeiros instantes de vida, como uma avestruz de cabeça na areia, com o seu corpo rijo e empinado num cantinho, no parapeito da sacada do meu apartamento, confundindo-se com a azul da parede, da sua cor quase grafite. - A leitura pode aguardar. Pode aguardar o nada incógnito. - O desconhecido fascina o momento e necessito não interromper a cena daquele inseto moribundo parecendo eletrocutado por um minúsculo raio de néon sem poder se desvencilhar da luz fosforescente que parte de seus olhos, causando a impressão de que o que ele desejaria, era morrer. Já teria vivido, saboreado e infectado muita coisa em sua vida, e o trigésimo dia, o derradeiro momento, chegara. Agonizava perceptivelmente através da vibração das suas asas membranosas, uma indesejável sinfonia de morte, executada pelo próprio e minúsculo corpo de inseto. Nem a brisa da tarde triste oxigenava a mosca, e podia dar mais tempo a esse inseto de metamorfose completa e olhos facetados. Era o seu tempo e os últimos minutos da sua pequena e curta vida. Trinta dias, viveu, e onze minutos e trinta e sete segundos lutou para não morrer, o seu tempo de agonia. Um tempo muito longo de sofrimento e resignação contra a morte, comparado a curta vida da espécie.
     O som cessou e o vento soprou uma sinfonia amarela levando o minúsculo corpo confundir-se com a neve de flores ainda mais amarelas no rez-de-chaussée, junto ao tapete da rua da minha casa, que nesse momento, a nostalgia ferra o meu coração e o instante é único: apenas lembro-me de quanto eu era feliz e não sabia. - Um paradoxo se, comparado à agonia da mosca.

Rio de Janeiro 10 de julho de 2009-07-10

 
EDIDANESI
Enviado por EDIDANESI em 11/09/2012
Alterado em 22/11/2017
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